Niterói está em luto. A nossa bela cidade Sorriso chora: muitos perderam suas casas. Muitos perderam bens móveis. Muitos perderam muitas horas de suas vidas, abrigados precariamente sob marquises, dentro de ônibus, ou em seus carros uma noite inteira. Mas, sobretudo, nesta semana trágica, muitos perderam um bem inestimável e único: a vida.
Crianças, no abrigo do seu lar, à sombra atenta dos cuidados de seus pais, avós, tios e tias, quando se preparavam para a única coisa que podiam ter em comum com as crianças de sua idade, moradoras de Icaraí, sono e sonhos, foram repentinamente sufocadas por lama e lixo. E as notícias por jornais e tevê nos dão conta de que pode não ter sido um acidente, mas um crime. Um crime de maus governos e de cidadãos omissos e complacentes.
“Roma está em chamas”, todos podem ver. Mas “o problema” lembra-nos o ator e diretor do filme Leões e Cordeiros, “não são as pessoas que começaram o incêndio. Elas são irrecuperáveis; e contam com a nossa apatia, com a nossa ignorância voluntária. O problema somos nós que não fazemos nada!”.
A Folha de S. Paulo, de exatos doze meses atrás, registrou que o maestro russo Gennady Rozhdestensky anulou um concerto em Paris, com a Orquestra Nacional da França, por causa de desatenção e indisciplina dos músicos. O que farão os cidadãos de Niterói face os gestores de recursos públicos de nossa cidade que tocam sistematicamente fora da “partitura”?
Precisamos reconhecer a verdade das palavras do filósofo cristão Miroslav Volf, quando diz que o perdão não é o oposto da justiça. Perdoar significa afirmar o que a justiça exige: um malfeito aconteceu, e que é um malfeito. Perdoar, diz acertadamente Volf, significa não nutrir ressentimento pelo malfeitor, mas não dispensá-lo da responsabilidade e da pena do malfeito. Afinal, “Em terreno tão mal desbastado, não é fortuito que as ervas daninhas voltem a crescer”, adverte-nos o historiador Boris Fausto.
Todos nós perdemos. Mesmo os que não perderam bens, parentes e amigos com as chuvas, perderam a ilusão de que as coisas e as relações se resolverão por si mesmas. Os políticos não fizeram nada diferente de sempre: desvio de finalidade das verbas que deveriam prover condições minimamente decentes para o cidadão comum viver e morrer.
Perdemos também a ilusão de nós mesmos. Somos cúmplices dos crimes do sistema. Por insensibilidade; vendo como os muito pobres morrem, vemos que não queremos ver como eles vivem. Perdemos também a autoilusão de que somos muito superiores aos nossos homens públicos. Afinal, como diz Veríssimo, “o que não nos indigna também nos define”. Finalmente, nós que pagamos o IPTU dos mais caros do Brasil, vemos que nos enquadramos no conceito do filósofo Olavo de Carvalho, de “O Imbecil Coletivo”:
O imbecil coletivo não é, de fato, a mera soma de certo número de imbecis individuais. É, ao contrário, uma coletividade de pessoas de inteligência normal, ou mesmo superior, que se reúnem movidas pelo desejo comum de imbecilizar-se umas às outras. Se o desejo é consciente ou inconsciente não vem ao caso: o que importa é que o objetivo geralmente é alcançado.
Na desproporção entre nossos direitos e deveres, temos usado e abusado de uma prerrogativa que nenhum cristão tem: a alienação. Perdemos de perspectiva um fato crucial do qual Jesus nos adverte expressa e solenemente: o bem que fazemos ou deixamos de fazer a “um destes pequeninos irmãos” a Ele fazemos, ou negamos. Tornar-se santo é tornar-se humano. “Humano” como Deus nos concebeu e criou. A relevância dos fatos está nas pessoas. No tempo e na eternidade, gente é o que importa. Sempre.
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